Jornalismo Básico 2: reportagens especiais/Reportagens do JOB/Rafaela Putini e Camila Gambirasio

Artesão das ruas


Um sorriso tímido, convidativo e sereno. Tão calmo que destoa do vai e vem apressado do centro da cidade, quase na esquina do Theatro Municipal, onde ele estende todos dias, pontualmente às 8, a lona em que expõe seu trabalho. Esse é Francisco Félix dos Santos, um artesão de falar simples e dono de uma arte detalhista e primorosa. Não hesitou quando perguntamos se ele poderia falar da vida de um artista de rua, e, enquanto manuseava a madeira, começou a contar que a vida por aqui na metrópole começou há 22 anos, quando por problemas familiares deixou a Paraíba.

Aqui já fez de tudo, mas foi há 18 anos que descobriu o artesanato. “Quando você começa a fazer artesanato o cérebro abre, ai fica mais fácil fazer todo tipo de coisa manual”, contou ele ao mostrar um chaveiro feito de contas e um vaso feito com palitos de sorvete, para exemplificar as habilidades múltiplas. Aprendeu o ofício e posteriormente se especializou com cursos, sendo hoje completamente apaixonado pela rua e pelo que faz. Ao conversarmos com ele, fica claro que o artista possui um talento natural para o exercício. Conta sobre o processo de produção de sua arte como se fosse a atividade mais simples do mundo - para ele, bastam apenas cinco minutos e uma lixa para que uma placa de madeira se transforme em um letreiro. Mas, como nem tudo na rua são flores, faz questão de contar das adversidades que enfrenta no centro de São Paulo. Segundo ele, a crise econômica em que o país se encontra afeta diretamente suas vendas. Ele conta que, em comparação com anos anteriores, hoje em dia bem menos pessoas param para comprar seus artesanatos. Mesmo assim, as vendas ainda valem a pena.

A liberdade da rua e a liberdade da criação parecem ideais para o espírito livre, que sorri satisfeito quando lembra que é seu próprio patrão. Esta que é, segundo ele a maior vantagem de poder trabalhar expondo sua própria arte. A rotina, por exemplo, é ele mesmo quem constrói, trabalhando nos dias que julga mais movimentados e voltando para casa em dias mais fracos. Em contraste com a rotina frenética que o rodeia, não tem dias fixos nem para comprar sua matéria-prima: “eu compro quando precisa mesmo”, conta. É essa liberdade e tranquilidade que o fazem querer continuar até os 99 anos de idade, como ele sonha. “Faltam só 29 anos”, diz, expressando um sorriso bem humorado.

Casado e pai de três filhos, só um tem curiosidade pelo caminho do pai, mas “ele tem que trabalhar carteira registrada, né, porque tem filho para criar”, pontua. Os filhos na Bahia, ele no caos do centro. Se endureceu enquanto falava deles, parecia ter saudades, mas tentava esconder. De forma bem natural Francisco desviou do assunto: “sua professora, que falou para você fazer essa reportagem, fuma? Leva esse cinzeiro aqui de presente para ela”, despindo a dureza que ele mesmo tentou criar minutos antes. Francisco tem uma generosidade maior do que parece caber na baixa estatura.