O laboratório cidadão não é uma assembleia legislativa nem uma plataforma para mobilizar ideias afinadas com partidos, coletivos ou movimentos sociais. Um laboratório é um espaço de trabalho orientado para a produção de protótipos e não uma sala de exposição. Um laboratório cidadão é um lugar no qual se experimentam novas formas de cidadania e novas formas de conhecimento. (Antônio Lafuente[1]. Laboratorios ciudadanos: conocimiento expandido, ciencia colateral y política experimental)

História da Computação nas Humanidades

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1949: Padre jesuíta Roberto Busa iniciou a elaboração do Index Thomisticus , que analisou a obra de São Tomás de Aquino. Utilizou máquinas de processamento informático desenvolvidas na Segunda Guerra Mundial. Naquele tempo, o processamento era feito em computadores que ocupavam salas inteiras e com cartões perfurados.

1960 a 1990: Os computadores passaram a ter cada vez maior capacidade de armazenamento e processamento. Dessa forma, a computação passou a ser utilizada de forma significativa, por exemplo, na História Quantitativa, pela elaboração de grandes bases de dados com informação sobre longas séries de preços, salários ou impostos.

Década de 1980: Surgimento dos computadores pessoais, que passaram a ser usados fora do ambiente universitário ou empresarial. No entanto, se criou um afastamento entre as áreas de Humanidades, como Estudos Literários ou Demografia, que sempre haviam dependido dos departamentos de computação e se mantiveram afastados dos processos de planificar, desenvolver e até, em algumas situações, de utilizar as ferramentas digitais em seus projetos.

1991: advento da Internet. Possibilitou cada vez mais interação entre os investigadores em Humanidades e os meios digitais. Grandes projetos de digitalização e disponibilização online de fontes iniciaram e a relação dos acadêmicos com os meios digitais foram alterados significativamente através do processador de texto, e-mail, bases de dados, sistemas de informação geográfica.

2005: explosão da Web 2.0 e das redes sociais (como Twitter, o Youtube, o Facebook ou o Academia.edu), que possuem conceitos, linguagens e ferramentas próprias. Este momento fundamental coincide com a divulgação da expressão “Humanidades Digitais”. Com essas ferramentas da web social, a forma de trabalhar passa a ser facilitada pela possibilidade de criação de redes, partilha de resultados, dar a início a trabalhos colaborativos e interdisciplinares, etc.

O que são as Humanidades Digitais?

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Quando McCarthy falava de “Humanities Computing”, em 1998, ela se perguntava se essa nova área poderia ser definida por uma prática coerente e se nós teríamos imaginação e vontade política necessária para nos lançarmos no que ele chamava de uma “grande aventura intelectual”.

Essa aventura não deveria tratar o computador como um ferramenta, a exemplo da máquina de escrever, do telefone, da televisão etc. Os dispositivos computacionais não nos obrigam apenas a pensar o "impacto" da computação nas Humanidades. Esse encontro produz uma mudança nos objetos e nos métodos dessas áreas. São questões que nos remetem à sociologia do conhecimento. Uma ferramenta pode ser vista apenas como objeto utilitário para o usuário comum, mas para aquele que domina a arte de seu uso, ela se torna “uma prótese mental, um agente de percepção e instrumento de pensamento” (McCARTHY, 1998).

O termo "Humanidades Digitais", mesmo, só aparece em 2002, com John Unsworth.

Sua popularização só ocorreu em 2004, a partir da publicação do livro Companion to Digital Humanities, o que fez com que o termo “Humanidades Digitais” servisse para abarcar todas a outras nomeações, como Computação para as Humanidades, Informática Aplicada à História, Linguística Computacional, Arte Digital etc.

Existem distintas definições para “Humanidades Digitais”. Algumas vezes, o termo funciona como designação de um conjunto de práticas específicas, enquanto, outras vezes, aparece como um novo campo acadêmico. Contemporaneamente, elas representam um reposicionamento intelectual, político e ideológico diante da inclusão das tecnologias computacionais em diversos setores da sociedade. Essa diversidade de designações parece indicar que a área ainda está se desenvolvendo e procurando se afirmar, tanto entre o meio acadêmico quanto entre o público em geral.

Kirschenbaum observa que o termo é móvel e tático, não apenas na forma pragmática com que a denominação é tratada nas universidades, editoras, órgãos de fomento à pesquisa ou até mesmo na imprensa, mas, também, para coisas muito específicas como possibilidade de desenvolvimento da carreira acadêmica, estabelecimento de programas de investigação, formação de laboratórios ou centros de pesquisas. (KIRSCHENBAUM, 2019)

Quando Berry (2011) destaca a “virada computacional” nas ciências, ele está preocupado em nos alertar para a natureza e a dimensão dessa virada. Ela implica algumas mudanças de perspectiva na pesquisa em humanidades. Hoje nos deparamos com editores, críticos, bilbiotecários, historiadores, críticos literários que estão trabalhando com linguagens e formatos que não são originariamente de suas áreas de formação (XML, GIS, CSS, R). Eles acabam por se envolver no “deep encoding” de textos literários, modelagens 3D, simulações, infográficos dinâmicos e, em alguns casos, na própria escrita do software que utilizam. (RAMSAY & ROKWELL, 2019). Eles dependem, também, da pesquisa colaborativa, multidisciplinar, que lida com novas escalas de análise (Big Data p.ex.).

A complexidade dessas transformações levou Ryan Cordell (2015) a criar um tutorial bastante curioso sobre “Como não ensinar Humanidades Digitais”

O Manifesto das Humanidades Digitais que aparece na reunião do The Humanities and Technology Camp (THAT Camp) de 18 e 19 de maio de 2010, em Paris, foi organizada em 5 tópicos: contexto, definição, situação, declaração e orientações. Nas suas declarações e orientações, merecem destaque:

“III. Declaração

5. …comunidade de prática solidária, aberta, acolhedora e de livre acesso.

6. ...comunidade sem fronteiras…multilingue e multidisciplinar.

7. …nossos objetivos são o progresso do conhecimento, o reforço da qualidade da pesquisa em nossas disciplinas, e o enriquecimento do saber e do patrimônio coletivo.

8. Convocamos à integração da cultura digital na definição da cultura geral do século XXI.

IV. Orientações

9. …apelo ao acesso livre aos dados e os metadados… devem ser documentados e interoperáveis, tanto técnica como conceitualmente.

10. Somos a favor da divulgação, da circulação e do livre enriquecimento dos métodos, do código, dos formatos e dos resultados da pesquisa”

No livro Companion to Digital Humanities, a professora Susan Hockey, da área das Ciências da Informação na University College London, trata as Humanidades Digitais como uma área acadêmica interdisciplinar. Elas forneceriam metodologias específicas da área das tecnologias digitais para serem incorporadas na investigação nas Humanidades como um todo.

Para O’Donell, ela é uma área de “atividade interdisciplinar que transfere para os meios digitais o trabalho tradicional com textos, objetos culturais e outros dados, com isso estendendo radicalmente seus usos potenciais“.

Cummings observa que ela designa um campo de estudos cujo objeto de (auto-)reflexão é a própria aplicação da tecnologia digital nas investigações em humanidades.

Alex Reid considera as humanidades digitais, simplesmente, como as humanidades na contemporaneidade.

Em todo caso, elas não podem jamais ser reduzidas à aplicação do computador às disciplinas de ciências humanas. É muito mais complexo, pois não estamos lidando com "tecnologias" e seus "impactos", mas com o produto de nossas próprias imaginações na relação entre humanos e máquinas.

Esses processos de internalização das máquinas e externalização da inteligência e o seu papel na evolução humana podem ser vistos nos estudos de Bruce Mazlish.

...o envolvimento acadêmico sério com o computador significa internalizá-lo de modo que ele se torne, como eu disse antes sobre ferramentas em geral, um agente de percepção e instrumento de pensamento. Não é, no entanto, inteiramente correto dizer que internalizamos a máquina, em vez disso, voltamos a internalizar o produto de nossas próprias imaginações. . (McCarthy, 1998)

Percebe-se, então, uma intrincada relação entre práticas tradicionais e as novas tecnologias. Como também está claro no Manifesto THAT CAMP (The Humanities and Tecnology Camp) de 2010, as práticas nesse campo não negam o passado, elas apoiam-se, pelo contrário, no conjunto dos paradigmas e conhecimentos próprios dessas disciplinas, mobilizando simultaneamente os instrumentos e as perspectivas singulares do mundo digital.

Os exemplos desse tipo de integração podem ser visto em :

Thesaurus Linguae Graecae: projeto pioneiro iniciado em 1972 e que constitui hoje a maior e mais bem trabalhada coleção de textos clássicos sob forma digital. É um exemplo da transferência do saber acadêmico tradicional ao ambiente digital

HyperCities: trata-se de uma rede de representações de mapas de satélite atuais com mapas antigos de diversas cidades do mundo. É um exemplo de manipulação computacional de outros objetos além dos textos. Nesse projeto, percebe-se a mobilização de outros saberes tradicionais, além da filologia, nos projetos de Humanidades Digitais, e é, sobretudo, representativa do caráter transdisciplinar do campo.

Ao mesmo tempo em que não há um entendimento muito claro sobre o lugar das Humanidades Digitais no pensamento contemporâneo, elas também têm sido alvo de outro tipo de críticas. Alguns autores têm argumentado que esse campo de estudos é otimista demais com as contribuições das ciências da computação e baseado em um visão extremamente simplista sobre encontro entre Humanidades e Ciências da Computação. Essas críticas esperam maiores engajamentos da área em questões como gênero, classe, raça e sexualidade, fazendo uma conexão maior com os Estudos Literários e Estudos Culturais.

"Comunidades" e "Comunidades de práticas" das Humanidades Digitais

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MORE HACK, LESS YACK!

Essa frase foi criada no THATCAMP de 2008 (o primeiro encontro na Universidade de George Mason) e tem sido usada - quase como um tipo de tweet - para designar uma mal-entendida diferença entre realizadores e teóricos. A expressão foi cunhada para descrever o espírito de partilha de ideias e de projetos práticos que deveriam substituir o ato de ouvir passivamente a fala de alguém (WARWICK, 2016 p.538)

Quanto à chamada Comunidade de Humanidades Digitais, ela é constituída pelo conjunto de investigadores que fazem da ligação entre computação e Humanidades o centro da sua atividade científica e acadêmica.

Já as "comunidades de práticas" são geradas pelo uso comum de uma mesma ferramenta ou metodologia digital. O foco está na efetiva aplicação - em oposição à mera formulação teórica - de ideias, conhecimentos ou métodos das disciplinas das Humanidades.

O conceito de ‘comunidade’ funciona entre os humanistas por um motivo específico: ele cria uma identidade entre pesquisadores que vêm de áreas diversas que pouco se comunicariam - a não ser pelas metodologias digitais que servem como elemento agregador e ponto de contato entre eles. Um exemplo de uma das comunidades de práticas mais dinâmicas é a do TEI (Text Encoding Initiative), dedicada à edição eletrônica de textos.

A «comunidade» é importante não só no aspecto de autoidentificação entre o grupo de investigadores das Humanidades Digitais, mas no próprio funcionamento de projetos, como método de investigação ou de aferição da qualidade da investigação levada a cabo. Ainda em 2004 destacava-se o «acordo da comunidade sobre as melhores práticas», uma espécie de visão mais democrática sobre a forma de validar o trabalho académico dos humanistas digitais, como um «ingrediente importante» para tornar esse mesmo trabalho mais «interoperável e sustentável» (ALVES, 2016)

Referências Bibliográficas

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Ler:

ALVES, Daniel. As Humanidades Digitais como uma comunidade de práticas dentro do formalismo académico: dos exemplos internacionais ao caso português , Ler História [Online], 69 p. 91-103,| 2016

BERRY, David. The computational turn: thinking about the digital humanities. Culture Machine, v.12, 2011


Digital Culture Books da Universidade de Michigan (free online)


Complementar:

BERRY, David; FAGERJORD, Anders. Digital Humanities. Cambridge/UK: Polity Press, 2017

DEL RIO RIANDE, Gimena. “¿De Qué Hablamos Cuando Hablamos de Humanidades Digitales?” In Actas de Las I Jornadas de Humanidades Digitales , edited by Lucía Cantamutto, Gimena Del Río Riande, and Gabriela Striker, 50–62. Buenos Aires: Editorial de la Facultad de Filosofía y Letras, 2015.

GUNKEL, D. J. Beyond mediation: thinking the computer otherwise. Interactions, Bristol, v. l, n. 1, p. 53-70, 2009.

DIAZ, Mirelys Puerta et ali. HUMANIDADES DIGITAIS: visualização da produção científica In: Workshop de informação, dados e tecnologia (2 : 2018 : João Pessoa-PB).Anais WIDaT 2018, de 27 a 29 de novembro de 2018 / Organizadores : Ricardo César Gonçalves Sant’Ana, Moisés Lima Dutra, Guilherme Ataíde Dias. - João Pessoa  : Editora UFPB, 2018

GOLD, Matthew K (org.). Debates in Digital Humanities - Minneapolis: University of Minessota Press, 2019 (updated)

KIRSCHENBAUM, Matthew. Digital Humanities As/Is a Tactical Term. In: GOLD, Matthew K (org.). Debates in Digital Humanities - Minneapolis: University of Minessota Press, 2019 (updated)

MAZLISH, Bruce (1993). The Fourth Discontinuity: The Co-Evolution of Humans and Machines. New Haven: Yale University Press.

McCARTY, Willard. What is humanities computing? Toward a definition of the field. Paper presented at Liverpool, 20 February 1998.

PIMENTA, Ricardo M. Das iniciativas em Humanidades Digitais e suas materialidades: relato de um laboratório em construção contínua. Memória e Informação, v. 3, n. 1, p. 1-14, jan./jun. 2019

RAMSAY, Stephen, ROCKWELL, Geoffrey Developing Things: Notes toward an Epistemology of Building in the Digital Humanities, In: GOLD, Matthew K (org.). Debates in Digital Humanities - Minneapolis: University of Minessota Press, 2019 (updated)

SCHREIBMAN, Susan, SIEMENS, Ray, UNSWORTH, John. (eds). A new companion to digital humanities. Oxford: Blackwell. 2016. Acessado 02/02/2019

_____________________________________________ (eds). “The Digital Humanities and Humanities Computing: An Introduction.” In A Companion to Digital Humanities, xxiii–xxvii. Oxford: Blackwell, 2004.

SILVA, Cicero Inacio da; ALMEIDA, Jane de; HOOPER, Silvana Seabra. As Humanidades Digitais e as novas formas de disseminação do conhecimento. Lumina, v. 10, n. 2, ago. 2016.

UNSWORTH, John. What Is Humanities Computing and What Is Not? ( A talk delivered in the Distinguished Speakers Series of the Maryland Institute for Technology in the Humanities at the University of Maryland, College Park MD, October 5, 2000)

WARWICK, Claire. Building Theories or Theories of Building? A Tension at the Heart of Digital Humanities. IN: A New Companion to Digital Humanities. Wiley Blackwell, 2016

FLC6292 - Introdução às 'Humanidades Digitais' (2019)


Outras referências (reportagens e projetos)

Guía de buenas prácticas para la elaboración y evaluación de proyectos de Humanidades Digitales y checklist

Doing Digital Humanities - A DARIAH Bibliography

The European Association for Digital Humanities (EADH)

Digital Pedagogy in the Humanities - Concepts, Models, and Experiments - MLA Commons

Debates in the Digital Humanities

Stories Matter- Free Open Source (Oral History)

Humanidades Digitales: el diálogo entre Jurassic Park y The Walking Dead - Uniandes 070 - Omar Rincón, 30/10/2017 ("Entonces,  la propuesta es poner a dialogar los saberes jurásicos con los saberes zombies para construir entre todos una sociedad distinta, una en la que lo que sabemos, lo sabemos entre todos. Pero para eso se necesita y requiere otra academia, otra universidad, otras pasiones.") - Vale muito a pena a leitura.

Humanidades Digitales Hispánicas

As Humanidades Digitais Globais? - Maria Clara Paixão de Sousa - Universidade de Évora, 6 de outubro de 2015 (Blog do Grupo de Pesquisa Humanidades Digitais da USP)

Manifesto das Humanidades Digitais – 26 de março de 2011/Um breve panorama – Maria Clara Paixão de Sousa, setembro de 2011

Ryan CORDELL,. How not to teach Digital Humanities. Blog Ryan Cordell, 01/02/2015

King's Digital Lab

Mapping The Republic of Letter (Stanford)

Digital Humanities Now (Digital Humanities Now, or dhnow, thus combines the conceit of a scholarly journal with the real-time automated aggregation enabled by Twitter’s open Application Programming Interface. - Matthew Kirschenbaum)

Digital Methods Iniciative (wiki)

metadata games

Photogrammar

StoryMaps

What is Neatline? (Neatline is what you get when you cross archives and artifacts with timelines, modern and historical maps, and an appreciation for the interpretive aims of humanities scholarship.) / Omeka

Larhud (wiki I)

Lahud (wiki II)

DH will not save you - Adeline Koh, 19/04/2015

Michael J. Krammer - What Does Digital Humanities Bring to the Table? 25 September 2012

on the origin of “hack” and “yack” Blog Bethany NowviskiePosted on 8 January 2014

Manual Labour, Intellectual Labour and Digital (Academic) Labour - A Critical Enquiry of the Practice/Theory Debate in the Digital Humanities - Christophe Magis.

Say Digital Humanities One More Time (meme)/ I Do Digital Humanities. It is likewhat you do but Better (meme)

Humanidades Digitais - visualização da produção científica - Mirelys Puerta (Youtube)

Postcolonial DH: An Interview with Roopika Risam - Hastac - By Sylvia Fernández, on June 15, 2018


  1. Antonio Lafuente (Granada) trabaja en el Centro de Ciencias Humanas y Sociales (Madrid) del CSIC. Actualmente coordina el Laboratorio del Procomún, una iniciativa auspiciada por MediaLab-Prado de Madrid y que agrupa académicos, artistas y activistas para, entre otras cosas, explorar de forma abierta y colaborativa, emulando las prácticas cuya eficacia acreditaron las comunidades hackers, la posibilidad de encontrar un lenguaje capaz de expresar conjuntamente el elusivo, plural y muy diverso mundo de los bienes comunes. http://www.elmundo.es/economia/2014/04/05/533e9be122601d9b1b8b457a.html2014/04/05/533e9be122601d9b1b8b457a.html